Uma estação do metro de uma qualquer cidade do mundo "ocidental". Mulheres migrantes sozinhas estão à espera do comboio, que as irá levar para casa no final de um longo dia de trabalho. Cada mulher leva consigo o cansaço, o isolamento de não pertencer a um lugar pois cada uma tem uma história para contar, uma pequena história de fuga, de necessidades, de solidão, de esperança e de busca da própria identidade. Os comboios passam, param, sobe e desce gente num túnel igual a si mesmo, até ao infinito. No tempo irreal e plano da estação subterrânea as mulheres migrantes contam as próprias histórias com a própria roupa, o próprio penteado, gestos, olhares, conseguindo às vezes comunicar tocando-se ao de leve, olhando umas para as outras, por vezes unindo-se com os corpos e com as palavras.
Uma piscina cheia de água engloba as experiências partilhadas e os percursos de vida de Medea, e da sua criada. É o próprio terreno de jogo, casa, prisão, o próprio santuário. Perdido no tempo, perseguindo recordações, fechado em obssessões. Um lugar onde as próprias vidas começaram e acabaram, ao qual estão ligadas para delinear aquele percurso grotesco na direcção do passado.
"Um lamento para MEDEA" é uma pièce de grande nível expressivo, construída com o cenário de uma noite de traição e vingança, sobre as mulheres e a violência, sobre a dor, sobre a memória e sobre o corpo. Gestos que definem; gestos finais - ir mais além do ponto sem retorno.
Iris voa debaixo do mar e os seus longos cabelos flutuam como algas finas levadas pelas ondas. Iris está dentro de um quadro de Chagall, suspensa entre anémonas e peixes. Leve. Passa por ela, ao lado dela, a sina das mulheres migrantes que nunca alcançaram a margem, perdendo-se no azul antes de chegarem a terra firme. Nenhum canto de sereia interrompe a tranquilidade, mas ouve-se apenas o silêncio persistente e competente de milhões de mulheres que tomam conta dos outros. Vozes caladas e generosas as quais, recebendo ordenados de fome, tomam conta das famílias dos outros, abandonando as próprias. Iris obteve a cidadania tão desejada por um dia só. Depois da sua morte. Iris Noélia Palácios Cruz vinha das Honduras, e tinha chegado a Itália sem documentos. Encontrou trabalho, como muitas outras mulheres migrantes, numa família italiana.
Faço parte da primeira geração de elementos da minha família que nasceram em Portugal! Graças aos meus pais, tanto eu como a minha irmã, crescemos com a consciência das nossas raízes e com a consciência igual de que somos culturalmente mestiças. Como escreveu um dia Pepetela: não somos nem o sim nem o não, somos o talvez...
Cedo aprendi a comportar-me perante uma qualquer plateia de curiosos como uma verdadeira embaixadora honorária da cultura de origem dos meus pais. Contudo, sobreviver à agressividade latente da sociedade, e até ao seu repúdio em relação a tudo o que foge à norma instituída, não é tarefa fácil. Há muito que tomei consciência que ser-se ou não aceite na diferença passa por conquistar o outro; com a partilha do conhecimento, porque é precisamente o desconhecimento que assusta o Homem.